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Simões Pires | Nicolas Schettini | 06/04/2026
Um dos grandes desafios dos departamentos jurídicos é se comunicar com assertividade com as áreas financeiras. E, para isso, o jurídico precisa abandonar de vez a velha desculpa: “somos jurídicos, não entendemos de número”.
A principal ponte entre essas duas áreas — e, ao mesmo tempo, a maior fonte de tensão — são as provisões judiciais. É ali que o jurídico impacta efetivamente o resultado. E é ali que o CFO realmente presta atenção.
O problema não é a regra. É a prática. A provisão judicial não é, em essência, um tema complexo, na verdade o CPC 25 é claro: trata-se da melhor estimativa de perda, bastante simples, embora subjetivo.
Mas, na prática, a provisão virou um território cinzento dentro das empresas. E é justamente aí que nasce o problema, com o jurídico falando uma língua e o financeiro, outra.
Quando esses dois mundos se encontram, o ruído é inevitável:
E não estamos falando de pouco impacto. Uma simples reclassificação pode mexer em EBITDA, lucro líquido e percepção de risco — ou seja, valuation.
No fim do dia, o problema não é a provisão. É como ela é construída.
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O colapso silencioso: quando ninguém confia no número
Na teoria, a provisão deveria refletir a melhor estimativa. Na prática, o que se vê é:
O resultado é previsível: um número em que ninguém confia totalmente. Nem o jurídico nem o financeiro. E quando ninguém confia, surgem os pontos que todo jurídico já viu: o jurídico é pressionado; o financeiro cria ajustes paralelos; a auditoria aponta fraquezas materiais e a volatilidade vira rotina.
O verdadeiro inimigo do CFO: a volatilidade
Se tem algo que incomoda mais do que um número alto, é um número instável.
Uma provisão mal estruturada gera exatamente isso:
Isso quebra qualquer tentativa de previsibilidade. E muitas vezes o problema não é o evento, é a incapacidade de explicá-lo.
Um pagamento acima da provisão pode ser totalmente defensável:
Mas sem narrativa estruturada, vira ruído e ruído vira desconfiança.
O erro clássico: tratar tudo como operacional
Existe um segundo problema, mais silencioso — e igualmente relevante.
Muitas empresas ainda tratam a provisão integralmente como despesa operacional. Isso distorce o resultado (e aqui quem fala é uma pessoa que já atuou em dezenas de projetos desta magnitude). Parte relevante da provisão é efeito financeiro (juros, atualização monetária).
Quando isso não é segregado:
Em um país como o Brasil, com juros elevados, isso pode representar milhões classificados de forma incorreta. Não é só contabilidade, mas também a narrativa para o mercado e, principalmente, para as futuras tomadas de decisões.
O que a auditoria realmente quer (e raramente encontra)
Existe um padrão claro nas perguntas de auditoria:
Sem estrutura, cada resposta vira um esforço artesanal. E isso não se escala, a auditoria não está buscando perfeição. Ela busca quatro coisas: i. critério; ii. Consistência; iii. Documentação e iv. Dados históricos.
Sem isso, a provisão vira automaticamente uma yellow flag.
A virada de chave: provisão não é jurídica — é governança
No final do dia, a provisão judicial não é um problema jurídico. É um problema de governança.
Empresas que tratam provisão como “responsabilidade do jurídico” tendem a sofrer mais. Porque, na prática, a provisão é um tema financeiro alimentado por insumo jurídico.
Quando bem estruturada, o jogo muda completamente:
O que separa empresas maduras das demais
Empresas maduras não necessariamente têm menos processos. Mas têm mais controle sobre eles.
Elas conseguem:
E, principalmente, transformar a provisão em algo previsível — ou, no mínimo, explicável.
O que realmente queremos dizer:
A provisão judicial só se torna um problema quando quem a conduz não consegue compreendê-la, estruturá-la e comunicá-la corretamente.
Quando bem tratada, ela deixa de ser um susto trimestral e passa a ser exatamente o que deveria ser: uma representação fiel do risco da companhia — e uma alavanca de decisão.
Nicolas Schettini é Diretor de Legal Ops da Simões Pires.
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