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NovaCana | Lavinia Vieira e Ricardo Braghini – 14/05/2026
Neste último dia 11 fez dois meses desde que o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen foi protocolado. No dia 6 do mês que vem vence o prazo fatal para que a Raízen reestruture R$ 65 bilhões em dívidas, de um passivo total de R$ 98,6 bilhões.
O processo é o maior caso de recuperação extrajudicial da história corporativa brasileira, o que, por si só, dá a magnitude do evento com o qual estamos lidando.
O mercado trata o caso como um evento pontual, ainda que importante, fazendo uma leitura meramente confortável, mas incorreta.
O que está em curso não é apenas a reestruturação de uma dívida de R$ 65 bilhões. É um processo de reprecificação de risco que tende a redefinir o custo, o acesso e a estrutura de crédito em todo o agronegócio brasileiro, bem como a oferta de etanol e açúcar do Brasil.
A Raízen é, por definição, um player sistêmico. Sua escala, com participação de 20% na moagem do Centro-Sul e de 18% no mercado de etanol nacional, transforma a negociação atual em um evento de referência. Não apenas pelo tamanho, mas pelo tipo de decisão que se vai tomar, de maneira a estabelecer quem absorve perda, em que magnitude e sob qual estrutura de governança.
A tensão entre credores e companhia deixa claro que o ciclo anterior acabou. O modelo que combinava alavancagem elevada, expansão agressiva e financiamento de ativos de ciclo longo com custo de capital comprimido não se sustenta mais em um ambiente de juros estruturalmente mais altos, maior volatilidade climática e retornos operacionais menos previsíveis – especialmente em teses intensivas em capital, como o etanol celulósico (E2G) desenvolvido pela Raízen.
Talvez o maior impacto técnico da Raízen seja a viabilização comercial do E2G, um avanço não só sustentável como também eficiente, que visa aumentar a produção em até 50% sem plantar um único hectare a mais de terra.
O ponto central é que o mercado ainda subestima a velocidade dessa mudança. A discussão deixou de ser “se” haverá ajuste e passou a ser “como” e “quem paga a conta”.
Os olhos estão voltados para o processo de diluição dos acionistas. Credores estão negociando a conversão de dívida em ações, o que pode reduzir o controle da Shell e da Cosan sobre a companhia, mudando a tomada de decisão e a governança de um dos maiores grupos de energia do mundo.
Na prática, isso já está se traduzindo em três movimentos claros: crédito mais seletivo, exigência maior de garantias e governança, e redução da tolerância a estruturas excessivamente alavancadas.
Para produtores, usinas e grupos do setor, isso significa uma mudança imediata de postura, um olhar atento para “dentro de casa”, pondo no centro do debate parâmetros como liquidez, simplificação de estruturas, diversificação de funding e renegociação antecipada de covenants. O momento é de revisão profunda de custos e produtividade.
O esforço da gigante do setor de etanol para reestruturar seu capital reflete a complexidade e os desafios enfrentados por outros grandes players do agronegócio. Analistas de mercado, ao avaliarem a situação da Raízen (e de outros grupos, como o GPA), demonstraram otimismo quanto ao sucesso da reestruturação.
Como a Raízen detém uma fatia enorme da infraestrutura logística (terminais e ferrovias via Rumo), qualquer instabilidade gera gargalos na exportação brasileira o que deixa de ser um problema do agronegócio e passa ser um problema de todos os setores e, principalmente, demonstra a fragilidade da cadeia e o risco da verticalização.
Acompanhar a evolução deste caso é fundamental. Ele redefine o cenário de reestruturações no país e sublinha a importância da análise detalhada das operações e da solidez jurídica e consultiva no contexto agroindustrial.
O desfecho do caso Raízen será determinante, mas não por encerrar o tema, e sim porque funcionará como parâmetro. Uma solução coordenada pode organizar essa transição. Uma solução disruptiva pode acelerá-la de forma desordenada, elevando o custo de capital, restringindo o crédito já no curto prazo e acelerando o impacto do custo de consolidação do setor sucroenergético brasileiro.
Em ambos os cenários, a conclusão é a mesma: o agro brasileiro entrou em um novo regime operacional e financeiro. Os agentes que demorarem a reconhecer isso tendem a pagar mais caro — seja em custo de capital, seja em perda de acesso a ele ou até mesmo no custo da própria resiliência operacional do negócio.
Lavínia Vieira é sócia de Advisory da Simões Pires.
Ricardo Braghini é sócio de Tax da Simões Pires.