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Por que a provisão judicial virou o maior problema do jurídico? (e não deveria ser)

07/04/2026 - Artigo

Foto Por que a provisão judicial virou o maior problema do jurídico? (e não deveria ser)

Simões Pires | Nicolas Schettini | 06/04/2026

Um dos grandes desafios dos departamentos jurídicos é se comunicar com assertividade com as áreas financeiras. E, para isso, o jurídico precisa abandonar de vez a velha desculpa: “somos jurídicos, não entendemos de número”.

A principal ponte entre essas duas áreas — e, ao mesmo tempo, a maior fonte de tensão — são as provisões judiciais. É ali que o jurídico impacta efetivamente o resultado. E é ali que o CFO realmente presta atenção.

O problema não é a regra. É a prática. A provisão judicial não é, em essência, um tema complexo, na verdade o CPC 25 é claro: trata-se da melhor estimativa de perda, bastante simples, embora subjetivo.

Mas, na prática, a provisão virou um território cinzento dentro das empresas. E é justamente aí que nasce o problema, com o jurídico falando uma língua  e o financeiro, outra.

  • O jurídico trabalha com probabilidade, tese, jurisprudência e estratégia.
  • O financeiro precisa de previsibilidade, consistência e explicação de variações.

Quando esses dois mundos se encontram, o ruído é inevitável:

  • Para o jurídico, classificar um processo como “possível” ou “provável” é uma análise técnica legítima.
  • Para o financeiro, isso altera diretamente o resultado da companhia.

E não estamos falando de pouco impacto. Uma simples reclassificação pode mexer em EBITDA, lucro líquido e percepção de risco — ou seja, valuation.

No fim do dia, o problema não é a provisão. É como ela é construída.

O colapso silencioso: quando ninguém confia no número

Na teoria, a provisão deveria refletir a melhor estimativa. Na prática, o que se vê é:

  • Bases de dados desorganizadas
  • Ausência de critérios uniformes
  • Múltiplas metodologias convivendo sem governança (ticket médio, cálculo homologado, “feeling jurídico”)
  • Baixa rastreabilidade de alterações

O resultado é previsível: um número em que ninguém confia totalmente. Nem o jurídico nem o financeiro. E quando ninguém confia, surgem os pontos que todo jurídico já viu: o jurídico é pressionado; o financeiro cria ajustes paralelos; a auditoria aponta fraquezas materiais e a volatilidade vira rotina.

O verdadeiro inimigo do CFO: a volatilidade

Se tem algo que incomoda mais do que um número alto, é um número instável.

Uma provisão mal estruturada gera exatamente isso:

  • Um trimestre com reversão relevante
  • Outro com constituição inesperada
  • Outro com pagamento acima do provisionado

Isso quebra qualquer tentativa de previsibilidade. E muitas vezes o problema não é o evento, é a incapacidade de explicá-lo.

Um pagamento acima da provisão pode ser totalmente defensável:

  • Diferença metodológica
  • Timing processual
  • Atualização monetária

Mas sem narrativa estruturada, vira ruído e ruído vira desconfiança.

O erro clássico: tratar tudo como operacional

Existe um segundo problema, mais silencioso — e igualmente relevante.

Muitas empresas ainda tratam a provisão integralmente como despesa operacional. Isso distorce o resultado (e aqui quem fala é uma pessoa que já atuou em dezenas de projetos desta magnitude). Parte relevante da provisão é efeito financeiro (juros, atualização monetária).

Quando isso não é segregado:

  • O EBITDA fica artificialmente pressionado
  • A performance operacional é distorcida
  • A leitura do negócio fica comprometida

Em um país como o Brasil, com juros elevados, isso pode representar milhões classificados de forma incorreta. Não é só contabilidade, mas também a narrativa para o mercado e, principalmente, para as futuras tomadas de decisões.

O que a auditoria realmente quer (e raramente encontra)

Existe um padrão claro nas perguntas de auditoria:

  • Por que processos semelhantes têm tratamentos diferentes?
  • Por que houve variação relevante entre períodos?
  • Por que pagamentos estão acima do provisionado?

Sem estrutura, cada resposta vira um esforço artesanal. E isso não se escala, a auditoria não está buscando perfeição. Ela busca quatro coisas: i. critério; ii. Consistência; iii. Documentação e iv. Dados históricos.

Sem isso, a provisão vira automaticamente uma yellow flag.

A virada de chave: provisão não é jurídica — é governança

No final do dia, a provisão judicial não é um problema jurídico. É um problema de governança.

Empresas que tratam provisão como “responsabilidade do jurídico” tendem a sofrer mais. Porque, na prática, a provisão é um tema financeiro alimentado por insumo jurídico.

Quando bem estruturada, o jogo muda completamente:

  • Critérios claros por natureza e fase processual
  • Metodologia definida (e defensável)
  • Base de dados confiável
  • Fluxo estruturado de atualização
  • Integração com o financeiro

O que separa empresas maduras das demais

Empresas maduras não necessariamente têm menos processos. Mas têm mais controle sobre eles.

Elas conseguem:

  • Explicar variações com clareza
  • Antecipar desembolsos de caixa
  • Defender metodologias com segurança
  • Traduzir o jurídico para a linguagem do CFO

E, principalmente, transformar a provisão em algo previsível — ou, no mínimo, explicável.

O que realmente queremos dizer:

A provisão judicial só se torna um problema quando quem a conduz não consegue compreendê-la, estruturá-la e comunicá-la corretamente.

Quando bem tratada, ela deixa de ser um susto trimestral e passa a ser exatamente o que deveria ser: uma representação fiel do risco da companhia — e uma alavanca de decisão.

 

Nicolas Schettini é Diretor de Legal Ops da Simões Pires.

 

Veja também: NOTÍCIAS DO ECOSSISTEMA DE INOVAÇÃO

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